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Educação básica: o atraso e o futuro – Por Luís Roberto Barroso

Três dos grandes problemas são: não alfabetização da criança na idade certa, evasão escolar no Ensino Médio e não aprendizado mínimo ao final de cada ciclo.

O Ministro Luís Roberto Barroso se debruçou recentemente sobre a verdadeira agenda patriótica brasileira: a Educação Básica. Em texto publicado na revista acadêmica Direitos Fundamentais e Justiça, S. Exa. apresenta o sistema de Educação Básica, com as estatísticas respectivas, e expõe diagnósticos e soluções consensuais entre os estudiosos de modo a superar o atraso tupiniquim: “um esforço para trazer informações e mobilizar a comunidade jurídica para um fator decisivo ao desenvolvimento do Brasil”, explica Barroso.

O texto na integra, veja aqui.

O ministro faz um síntese do texto:


I. Introdução

Publiquei, no último número da revista acadêmica Direitos Fundamentais e Justiça, da PUC/RS, o artigoEducação Básica no Brasil: Do Atraso Prolongado à Conquista do Futuro” (clique aqui). Apresento aqui um resumo das ideias expostas naquele texto, com diagnósticos e soluções tidos como consensuais pelos especialistas. Considero este um dos principais itens de uma verdadeira agenda patriótica.

II. Objeto do trabalho

Meu artigo se baseou em alguns dos principais documentos internacionais (UNESCO, Banco Mundial, OCDE) e nacionais (INEP, SAEB, BNCC), bem como em prolífica e valiosa produção de instituições como Fundação Lemann, Todos pela Educação e Instituto Ayrton Senna. Também me beneficiei da generosa interlocução das Professoras Maria Helena Guimarães de Castro e Cláudia Costin, assim como do jornalista Antônio Gois. No trabalho, procurei tabular os principais problemas e algumas soluções consensuais para superar o atraso da Educação Básica no Brasil. Um esforço para trazer informações e mobilizar a comunidade jurídica para um fator decisivo ao desenvolvimento do Brasil. A síntese vai aqui.

III. A falsa prioridade

Apesar das declarações tonitruantes, a Educação Básica no Brasil não tem sido tratada como prioridade verdadeira. Com exceção da permanência mais prolongada de Paulo Renato e Fernando Haddad – períodos em que houve efetivo avanço –, Ministros têm se sucedido segundo a lógica do varejo político. Nos últimos sete anos, foram nove Ministros. Não há política pública que resista a esse tipo de descontinuidade. O País precisa de um plano estratégico, suprapartidário, de curto, médio e longo prazos, que não esteja à mercê dos prazos e das circunstâncias eleitorais.

IV. O desenho e os números do sistema

O sistema educacional brasileiro é organizado em Educação Superior e Educação Básica. A Educação Básica, objeto deste artigo, conta com 57 milhões de estudantes (INEP 2018) e é dividida em três níveis:

(i) Educação Infantil. Creche de zero a 3 anos e Pré-escola de 4 a 5. São 8,7 milhões de matrículas;

(ii) Ensino Fundamental. Estende-se dos 6 aos 14 anos, dividido em duas fases: 1º ao 5º ano (antigo Primário) e 6º ao 9º ano (antigo Ginásio). São 27,2 milhões de matrículas; e

(iii) Ensino Médio. Deve atender jovens de 15 a 17 anos, sendo ministrado em três anos. São 7,7 milhões de matrículas.

V. Os principais problemas

A universalização da Educação Básica no Brasil se deu com grande atraso, um século depois dos EUA. Elites extrativistas e autorreferentes adiaram, ao longo de quase todo o século XX, a democratização do acesso ao ensino público. Porém, nas últimas décadas, houve um inegável processo de inclusão. Os problemas, todavia, ainda são dramáticos: a escolaridade média é de 7,8 anos, inferior à média do Mercosul (8,6 anos) e dos BRICS (8,8 anos). Cerca de 11 milhões de jovens entre 19 e 25 anos não estudam nem trabalham, apelidados de “nem nem”. Alguns dos grandes problemas da Educação Básica no Brasil são:

(i) Não alfabetização da criança na idade certa. De acordo com a Base Nacional Comum Curricular, a alfabetização deve se dar, a partir desse ano de 2020, no 2º ano do Ensino Fundamental. Em larga proporção, isso não ocorre. Problemas associados à não alfabetização são os altos índices de reprovação e a defasagem idade/série;

(ii) Evasão escolar no Ensino Médio. Existem 10 milhões de jovens entre 15 e 17 anos. Cerca de 3 milhões deles estão fora da escola, entre os que não se matriculam, os que abandonam o estudo e os que são reprovados por falta. Isso impacta a renda, a produtividade e as opções de emprego dessas pessoas, além de aumentar o risco de violência e cooptação pela criminalidade. A necessidade de trabalhar e a falta de atratividade de currículos defasados são apontadas como principais causas; e

(iii) Déficit de aprendizado. Problema gravíssimo é detectado pelos sistemas de avaliação nacionais e estrangeiros: o jovem conclui o Ensino Fundamental e o Ensino Médio sem ter aprendido fundamentos básicos de Linguagem, Ciência e Matemática. Estamos no fim da fila no PISA, prova organizada pela OCDE para aferir o nível de aprendizado de jovens de 15 anos. O fato revela os críticos problemas de qualidade do ensino, ao ponto de que mais escolaridade não tem significado aumento na produtividade. Sem mencionar o analfabetismo funcional, que identifica os indivíduos incapazes de interpretar textos simples ou de fazerem operações matemáticas elementares.

VI. Algumas propostas de solução

Não existe bala de prata em matéria de Educação. Como dito anteriormente, é preciso um plano estratégico, suprapartidário, com objetivos de curto, médio e longo prazos bem definidos e perseguidos com políticas públicas consistentes e constantes. Abaixo, três ideias – em meio a muitas –, que constituem consensos importantes nessa matéria:

(i) Atração e capacitação de professores

Este é um dos pontos nevrálgicos da Educação Básica no Brasil: a pouca atratividade da carreira do magistério. Há problemas de valorização institucional e, consequentemente, dificuldade de atrair valores para os seus quadros. Sem desmerecer a dedicação e o talento de muitos professores vocacionados e abnegados, os dados demonstram que, nos últimos tempos, os cursos de Pedagogia são escolhidos pelos que têm rendimento abaixo da média no ENEM. Há problemas de formação de professores, de condições de trabalho, de infraestrutura das escolas e limitações quanto à remuneração. É preciso tratar o magistério como uma das profissões mais importantes do país, elevar a capacitação dos professores e aumentar a atratividade da carreira, com incentivos de naturezas diversas.

(ii) Escola em tempo integral

A ampliação do tempo de permanência na escola de cinco para oito horas é providência reconhecida como decisiva para o avanço da Educação Básica. Naturalmente, é necessário atentar para a qualidade desse tempo extra, com medidas curriculares e extracurriculares. Os Estados da Federação que adotaram programas de escolas em tempo integral, como Espírito Santo e Pernambuco, destacaram-se nos resultados do IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica). De acordo com dados do INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), menos de 10% dos alunos do sistema de Educação Básica estudam em tempo integral.

(iii) Ênfase na Educação Infantil

Documentos do Banco Mundial e pesquisadores reconhecidos internacionalmente atestam que o principal investimento a ser feito em Educação Básica é a partir das primeiras semanas de vida da criança. Nessa fase, o cérebro é uma esponja que absorve todas as informações que lhe são transmitidas. Esse é o momento de se assegurar que a criança receba nutrição adequada, afeto, respeito, valores e conhecimentos básicos. Embora o papel da família seja determinante, o fato é que, em um país como o Brasil, com tantos lares desfeitos, a escola precisa, em um percentual bastante relevante, suprir demandas que muitas vezes a criança não terá atendidas em casa. Mas as creches têm que ser de qualidade, quer nos seus professores, quer nas condições mínimas de infraestrutura. Pesquisas demonstram que boas creches contribuem de maneira significativa para o desenvolvimento do potencial das crianças, enquanto creches de má qualidade possuem, inclusive, efeitos contraproducentes.

Uma observação final: também existe consenso entre os especialistas – e comprovações empíricas mundo afora – de que a mera injeção de recursos, sem aprimoramento da gestão, sem projetos concretos e consistentes, não é capaz de trazer resultados significativos.

VII. Conclusão

O presente artigo e o estudo maior de onde foi extraído não têm pretensões acadêmicas ou de originalidade. Trata-se, tão somente, de uma contribuição para colocar o tema no radar da comunidade jurídica, expondo diagnósticos e soluções que constituem consensos entre os especialistas. Nesse tema, precisamos de conscientização, mobilização, investimento, gestão e monitoramento.

Em uma proposição sumária, resumindo a essência do que foi dito: três dos grandes problemas da Educação Básica no Brasil são: não alfabetização da criança na idade certa, evasão escolar no Ensino Médio e não aprendizado mínimo ao final de cada ciclo. Algumas das soluções propostas incluem valorização e capacitação dos professores, escolas em tempo integral e ênfase no ensino logo na primeira idade. Quem acha que o problema da Educação no Brasil é Escola sem Partido, identidade de gênero ou saber se 1964 foi golpe ou não está assustado com a assombração errada.


Luís Roberto Barroso é professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ e do Centro Universitário de Brasília – UniCEUB. Mestre pela Universidade de Yale. Doutor e Livre-Docente pela UERJ. Senior Fellow na Harvard Kennedy School. Ministro do Supremo Tribunal Federal.

Reportagem

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