Felipe Santa Cruz classifica como “graves” as conversas divulgadas entre procurador da República e Moro, mas diz ser necessário entender contexto e investigar ação de hacker

Bernardo Mello / Revista ÉpocaFelipe Santa Cruz, presidente da Ordem dos Advogados do Brasil desde o início deste ano, afirmou em entrevista à ÉPOCA que a recomendação de afastamento do ministro da Justiça Sergio Moro e do procurador da República Deltan Dallagnol é uma tentativa de preservar a imagem da Operação Lava-Jato após o vazamento de conversas entre ambos. O Conselho Federal da OAB decidiu na segunda-feira, de forma unânime, manifestar “perplexidade” com o conteúdo divulgado pelo site “The Intercept Brasil” e recomendar que os envolvidos peçam afastamento, “especialmente para que as investigações ocorram sem qualquer suspeita”.

O presidente da OAB criticou o conteúdo das conversas entre Moro e Dallagnol, que teriam debatido o uso de testemunhas de acusação e até a ordem de determinadas fases da Lava-Jato. Em nota, a OAB mostrou preocupação com a possibilidade de que autoridades tenham sido hackeadas.

Confira a seguir a entrevista:

Por que a sugestão de que Moro e Dallagnol se afastem de cargos públicos?

Na presidência de Itamar Franco, houve a investigação sobre o ministro (da Casa Civil) Henrique Hargreaves, que era seu braço-direito. A orientação foi que ele se afastasse do cargo, fizesse sua defesa e só depois regressasse. Qual é a preocupação agora? O ministro Moro comanda a Polícia Federal. É muito difícil, com um ministro da Justiça potencializado como está, não transparecer uma influência na própria investigação ou em sindicâncias que serão abertas. A recomendação foi feita a ele como um homem público, para que se defenda.

O mesmo se aplica a Dallagnol?

Ele (Dallagnol) comanda talvez a força-tarefa mais importante do Ministério Público Federal, na qual a população brasileira depositou grandes esperanças nos últimos anos de moralização, fim da impunidade. (O afastamento de Dallagnol) É até para preservar a Operação Lava-Jato, os processos, a imagem que se tem dela. Acho muito ruim que o método da Lava-Jato acabe se desacreditando, porque colocou fim à ideia de impunidade da classe dominante. Isso seria muito grave para a fé que a população tem na justiça.

O ministro Moro, na condição de juiz, chegou a ser criticado por dar visibilidade a conversas privadas do ex-presidente Lula em 2016…

Moro divulgou as conversas após o fim do mandado que autorizava uma gravação de presidentes. Talvez estejamos em uma grande batalha sobre se os fins justificam os meios. Eu continuo achando que não, por mais morais que sejam esses fins. Cidadão nenhum pode flexibilizar as leis e garantias constitucionais para satisfazer a sua vontade.

Como ele (Moro) fez esse discurso moral ao longo da sua trajetória, fica mais complicado agora pedir o que defendemos em nossa nota: prudência, contraditório, serenidade. O ministro Moro sempre falou em sentido contrário de tudo que está sendo acusado. E ainda foi defensor ferrenho da utilização de provas ilícitas. Ele incentivou o pacote de Dez Medidas Contra a Corrupção do MPF, e lá dizia que a prova ilícita deveria ser aceita quando fosse justificável. Eu acho que não deveria.

O presidente da OAB, Felipe Santa Cruz Foto: Daniel Marenco / Agência O Globo

Como o senhor vê o conteúdo das conversas divulgadas pelo Intercept Brasil?

É preciso ter serenidade. As conversas são muito graves, mas o que ninguém pode negar é que podem estar fora de contexto. Há uma série de discussões e provas que precisam ser feitas.

A OAB foi uma das poucas instituições de projeção nacional a sugerir o afastamento dos envolvidos…

A OAB é a voz da defesa. Mais que uma preocupação com esse processo, nos preocupamos que esse tipo de conduta (entre Moro e Dallagnol) se dissemine por todo o Brasil. Se há algo que ocorreu neste caso, foi a fragilização da defesa.

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